I ENCONTRO VIRTUAL DO CONPEDI
DIREITO, GLOBALIZAÇÃO E RESPONSABILIDADE
NAS RELAÇÕES DE CONSUMO
LITON LANES PILAU SOBRINHO
MARIANA RIBEIRO SANTIAGO
ROBERTO SENISE LISBOA
Copyright © 2020 Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito
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sejam quais forem os meios empregados sem prévia autorização dos editores.
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Membro Nato – Presidência anterior Prof. Dr. Raymundo Juliano Feitosa – UNICAP – Pernambuco
D597
Direito, globalização e responsabilidade nas relações de consumo [Recurso eletrônico on-line] organização CONPEDI
Coordenadores: Liton Lanes Pilau Sobrinho; Mariana Ribeiro Santiago ; Roberto Senise Lisboa – Florianópolis:
CONPEDI, 2020.
Inclui bibliografia
ISBN: 978-65-5648-036-7
Modo de acesso: www.conpedi.org.br em publicações
Tema: Constituição, cidades e crise

  1. Direito – Estudo e ensino (Pós-graduação) – Encontros Nacionais. 2. Assistência. 3. Isonomia. I Encontro Virtual do
    CONPEDI (1: 2020 : Florianópolis, Brasil).
    CDU: 34
    Conselho Nacional de Pesquisa
    e Pós-Graduação em Direito Florianópolis
    Santa Catarina – Brasil
    www.conpedi.org.br
    I ENCONTRO VIRTUAL DO CONPEDI
    DIREITO, GLOBALIZAÇÃO E RESPONSABILIDADE NAS RELAÇÕES DE
    CONSUMO
    Apresentação
    É com grande satisfação que introduzimos o grande público na presente obra coletiva,
    composta por artigos criteriosamente selecionados, para apresentação e debates no Grupo de
    Trabalho intitulado “Direito, Globalização e Responsabilidade nas Relações de Consumo”,
    durante o I Evento Virtual do CONPEDI, ocorrido entre 23 e 30 de junho de 2020, sobre o
    tema “Constituição, Cidades e Crise”.
    Os aludidos trabalhos, de incontestável relevância para a pesquisa em direito no Brasil,
    demonstram notável rigor técnico, sensibilidade e originalidade, em reflexões sobre o tema
    das relações de consumo. De fato, não se pode olvidar que a as questões da
    contemporaneidade implicam num olhar atento para a matéria, mas, ainda, extrapolam tal
    viés, com claro impacto nos segmentos ambiental, social e econômico, envolvendo as figuras
    do Estado, do consumidor e da empresa, demandando uma análise integrada e interdisciplinar.
    Os temas tratados nesta obra mergulham na eficácia dos negócios jurídicos da internet, no
    consumidor no ambiente virtual, na problemática do superendividamento, nos contratos
    eletrônicos no mercado secundário, na relação entre consumo e imigração, na rotulagem
    frontal de alimentos, na responsabilidade civil, nos casos de hipervulnerabilidade do
    consumidor, nas especificidades do arrependimento na compra de passagem aérea, nas
    exigências sobre a performance do Poder Judiciário, na desconsideração da personalidade
    jurídica no âmbito das relações de consumo, na análise econômica do desvio produtivo, no
    consumo colaborativo, nos desafios impostos ao consumidor em tempos de pandemia etc.
    Em sua abordagem, nota-se que os autores utilizaram referenciais teóricos refinados sobre a
    sociedade de consumo, sociedade de risco, sociedade da informação, sociedade do cansaço,
    globalização, dialogo das fontes etc., o que realça o aspecto acadêmico do evento.
    Nesse prisma, a presente obra coletiva, de inegável valor científico, demonstra uma visão
    lúcida e avançada sobre questões do direito das relações de consumo, suas problemáticas e
    sutilezas, pelo que certamente logrará êxito junto à comunidade acadêmica. Boa leitura!
    Prof. Dr. Liton Lanes Pilau Sobrinho (Universidade do Vale do Itajaí / Universidade de Passo
    Fundo)
    Profa. Dra. Mariana Ribeiro Santiago (Universidade de Marília)
    Prof. Dr. Roberto Senise Lisboa (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)
    Nota técnica: Os artigos do Grupo de Trabalho Direito, Globalização e Responsabilidade nas
    Relações de Consumo apresentados no I Encontro Virtual do CONPEDI e que não constam
    nestes Anais, foram selecionados para publicação na Plataforma Index Law Journals
    (https://www.indexlaw.org/), conforme previsto no item 8.1 do edital do Evento, e podem ser
    encontrados na Revista de Direito, Globalização e Responsabilidade nas Relações de
    Consumo. Equipe Editorial Index Law Journal – publicacao@conpedi.org.br.
    1
    Mestranda em Direito pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Especialista em Direito Civil e Processo Civil
    pelo Complexo de Ensino Superior Meridional. Graduada na Universidade de Passo Fundo (UPF). Advogada.
    2
    Mestrando em Direito pela Universidade de Passo Fundo. Especialista em Direito Público pela Fundação do
    Ministério Público/RS. Bacharel em Direito pela Universidade da Região da Campanha, campus São Gabriel.
    Advogado.
    CONSUMO X IMIGRAÇÃO: A INFLUÊNCIA CONSUMERISTA NO
    RECONHECIMENTO DO IMIGRANTE
    CONSUMPTION X IMMIGRATION: THE CONSUMERIST INFLUENCE ON THE
    RECOGNITION OF IMMIGRANTS
    Carime Tagliari Estacia 1
    Pablo Prates Teixeira 2
    Resumo
    O modelo capitalista intensificou o processo de globalização, incentivou o consumo e a
    exploração dos países subdesenvolvidos. A migração surge como um fator decorrente desse
    cenário. O imigrante, na busca de melhores condições de vida, enfrenta dificuldades de
    reconhecimento nos países de destino. Para neutralizar sua identidade, o imigrante consome o
    modelo de vida proposto pelo capital. O objetivo do trabalho é ponderar o consumo como
    forma de inserção social do imigrante. Os resultados insinuam que o consumo colabora para
    o imigrante dissipar sua identidade, mas não efetiva seu reconhecimento. O trabalho é
    norteado pelo método dedutivo.
    Palavras-chave: Capitalismo, Globalização, Consumo, Imigração, Reconhecimento
    Abstract/Resumen/Résumé
    The capitalist model intensified the globalization process, encouraged the consumption and
    exploitation of underdeveloped countries. Migration emerges as a factor resulting from this
    scenario. The immigrant, in search of better living conditions, faces difficulties in recognition
    in the destination countries. To neutralize their identity, the immigrant consumes the life
    model proposed by capital. The objective of the work is to consider consumption as a way of
    immigrant’s social insertion. The results suggest that consumption helps the immigrant to
    dissipate their identity, but does not effectively recognize it. The work is guided by the
    deductive method.
    Keywords/Palabras-claves/Mots-clés: Capitalism, Globalization, Consumption,
    Immigration, Recognition
    125
    Introdução
    Prevalece hoje no mundo, o sistema econômico fundamentado pelo capital e
    sustentado pelo consumo. Esse modelo fomentou grandes alterações e mudanças nos países
    desenvolvidos, reformulando os conceitos de produção e consumo, bem como, influenciando
    as relações entre os Estados, a política e a sociedade, impactando diretamente a vida dos
    cidadãos.
    Não obstante, grandes consequências também puderam ser percebidas em razão da
    adoção do capitalismo consumista nos países subdesenvolvidos; quanto ao ponto, vale lembrar
    que “o capitalismo é um sistema parasitário” (BAUMAN, 2010, p. 8). Este modelo financeiro
    tem por objetivo a acumulação de capital e da propriedade privada por meio da produção e do
    consumo com fins lucrativos, que por decorrência promove a exploração de países pobres em
    busca de mão de obra barata e de recursos naturais, a fim de diminuírem os custos e aumentarem
    seus rendimentos.
    O processo de globalização, produto desse modelo, alavanca ainda mais esse cenário,
    que ao mesmo tempo em que promove desenvolvimento, evolução, pesquisas, tecnologia e
    informação, torna o mundo cada vez mais conectado e com fronteiras terrestres cada vez mais
    questionáveis e permeáveis. Contudo, esse movimento agrega, igualmente, um grande número
    de Estados falidos e suas populações sedentas por uma vida digna e pela possibilidade de
    usufruírem dos bens de consumo por eles manufaturados; tudo com o intuito de desfrutar do
    modo de vida idealizado pelas propagandas do capitalismo, que dissemina a ideia de liberdade
    e felicidade através do consumo.
    É nesse sentido, que acompanhamos hoje um forte movimento migratório que circula
    por todo o globo. Embora, a imigração não seja um fenômeno recente na história da humanidade
    (BAUMAN, 2017, p. 9), dado que a movimentação humana em nome da liberdade, da fuga por
    perseguições políticas e religiosas ou por terras produtivas sempre esteve presente, a mobilidade
    apresenta um novo viés, pois o principal motivo migratório é hoje relacionado com a busca de
    melhores condições de vida; a qual, segundo a propaganda capitalistas, limita-se a inserção dos
    indivíduos no mercado de consumo: consuma e seja feliz!
    Contudo, essa condição está intimamente relacionada ao modelo de sociedade de
    consumidores, a qual efetivamente é usufruída por uma pequena parte da população mundial
    (BAUMAN, 2008, p. 23). Esses cidadãos são moradores de países dados como desenvolvidos,
    lhes sendo acessíveis uma condição de vida digna (nos padrões capitalista de consumo) e
    inúmeras outras possibilidades promovidas pelo modelo de capital. Dessa forma, os nacionais
    126
    de países periféricos, a margem dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento, são como
    que hipnotizados pela propaganda capitalista e notadamente sugados por esse parasita; estas
    pessoas, deslocam-se até esses territórios para que também possam ter acesso a prometida
    qualidade de vida, a condições dignas e para que também possam usufruir desse mercado de
    produtos e desejos, cravejado como um modelo de vida dito ideal.
    Dentro dessa intercessão, entre suas causas e consequências, quando o imigrante chega
    ao novo território, depara-se com tensões geradas diante de uma sociedade culturalmente já
    preestabelecida, que geralmente diverge bastante da sua. Por conseguinte, após sua chegada ao
    país de destino, esse imigrante começam uma nova jornada, qual seja, a busca por ser
    reconhecido pelos cidadãos originários, o que necessariamente passa pelo ato de ingressar no
    mercado de consumo de bens e produtos; para tanto, o imigrante inclusive aceita alterar seu
    modo de ser e parecer, como uma das formas de se sentir integrado nesse meio, que agora passa
    a ser sua nova comunidade (ENNES; RAMOS, 2017, p. 2).
    À vista disso, o objetivo do presente trabalho é analisar as interfaces do capitalismo,
    da imigração e do consumo como uma das expressões do sentimento de pertencimento e de
    reconhecimento. O trabalho será norteado pelo método dedutivo, partindo de uma análise macro
    do sistema econômico do capitalismo, da estrutura de exploração de países não desenvolvidos
    e a migração desses povos na busca por melhores condições de vida e na inserção no mercado
    de consumo, tendo como principal referencial teórico Zygmunt Bauman.
    A análise se perfaz quando da relação entre o imigrante e sua chegada no novo
    território e da indigência do consumo como forma de reconhecimento. Conclui-se que o
    reconhecimento não se perfaz com a simples integração do imigrante no mercado de consumo,
    contudo, o ele passa a utiliza dessa ferramenta como forma de neutralizar suas características
    pessoais e seu comportamento, para assim facilitar seu reconhecimento.
    1 O cenário da imigração no contexto mundial
    Com o advento da ordem econômica organizada a partir da busca pelo capital, é
    inquestionável que em pouco tempo grandes avanços relacionados com o desenvolvimento de
    novas tecnologias de informações e de comunicação, na mobilidade, e ainda no incremento de
    pesquisas e em melhorias na área da saúde, na qualidade e na comodidade na vida das pessoas
    puderam ser acompanhadas.
    A II Guerra Mundial e os anos seguintes são considerados o grande marco dessa
    evolução do capitalismo. A criação do modelo fordista possibilitou a produção em escala a
    127
    partir da invenção da linha de montagem, a qual tinha como finalidade reduzir ao máximo os
    custos de produção e assim baratear os produtos, aumentando exponencialmente o número de
    consumidores e o lucro das empresas (SILVA, 2018, p. 40).
    A partir do século XX a cultura da produção de mercadorias em larga escala, somado
    ao consumo em massa mudou estruturalmente a sociedade. As pessoas passaram a ser
    bombardeadas com propagandas sobre um modelo de vida nutrido por necessidades criadas, as
    quais tinham de ser satisfeitas por meio do consumo. Os Estados e os mercados se tornaram
    grandes aliados para gerir esses meios de produção, aumentar a lucratividade e dividir as
    responsabilidades sobre os trabalhadores (SILVA, 2018, p. 31).
    O panorama que era antes apresentado a partir de um Estado sólido, com fronteiras
    definidas, teve que se adequar ao novo cenário, o qual foi sistematizado, organizado e
    desenvolvido pela nova ordem econômica, que passou a influenciar as políticas públicas no
    Mundo inteiro. Como bem explica Bauman: “Para preservar sua capacidade de policiar a lei e
    a ordem, os Estados tiveram que buscar alianças e entregar voluntariamente pedaços cada vez
    maiores de sua soberania” (BAUMAN, 1999, p. 8).
    Nessa nova dinâmica, além dos Estados, seus projetos econômicos e políticos foram
    alterados e submetidos a vontade das empresas e do mercado de capital, decompondo a ideia
    de fronteiras e de soberania, que cada vez se tornavam mais tolerantes e permissivas. A
    competição irrestrita provocada pelo mercado do capital, que está fortemente vinculada ao
    sucesso da economia estatal fez com que mercados, Estados e organizações se interligassem
    com o objetivo de se fortalecerem, expandirem e baratearem custos da produção
    (KESSELRING, 2007, p. 157-158).
    Não obstante, o capitalismo, com seu poderio econômico, incentivou o consumo e
    fortaleceu seus domínios, na mesma proporção que se infiltrou nos poderes públicos,
    dominando as gestões dos mais diversos governos e instituições públicas. Nessa lógica, nos
    últimos anos a econômica política e a dinâmica financeira passaram a determinar e condicionar
    as políticas de governos, colocando a margem qualquer propósito relacionado ao cumprimento
    das necessidades humanas, seja das mais básicas, as mais complexas (SUBIRATS, 2011, p.
    13).
    Hodiernamente, os poderes públicos visam satisfazer as imposições dos mercados
    financeiros e proporcionar o desenvolvimento do sistema capitalista, de tal forma, que os
    Estados reduzem e moldam suas políticas a fim de não comprometer a dinâmica do capital.
    Neste sentido, objetivo primordial de um Estado, qual seja, de proteger e auxiliar seus cidadãos,
    tornou-se uma política cada vez menos capaz de gerenciar suas próprias instituições e seus
    128
    mecanismos para harmonizar, ou ao menos, compensar esse combate, pois a influência e
    superioridade financeira ganham essa luta (SUBIRATS, 2011, p. 20-21).
    A analogia feita por Baumann expressa nitidamente como o desenvolvimento desse
    sistema econômico se deu ao redor do mundo:
    […] o capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar
    durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe
    forneça alimento. Mas não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo
    assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua
    sobrevivência (BAUMAN, 2010, p. 8-9).
    O dano colateral, do capitalismo e do incentivo ao consumo, é a exploração de países
    subdesenvolvidos e de seus povos, pois o capital, após desfrutar e utilizar dos benefícios
    daqueles países, os abandonam; deixando, apenas, o ilusório encantamento de uma cultura
    consumerista e realizadora de desejos, para aqueles que permanecem privados desse modelo de
    vida. Esses acontecimentos se dão em esfera mundial, em razão do crescente número de países
    em situação de falência e de pobreza, com leis ineficazes e/ou sem aplicação, marcados por
    guerras, conflitos internos, corrupção e desastres naturais, o que invariavelmente deixam seus
    povos à mercê de uma vida indigna e os instigam a procura novas alternativas em prol do bemestar
    (BAUMAN, 2017, p. 11-13).
    Importante considerar, que primeiro objetivo de um imigrante, que foge de um pais
    em guerra ou assolado por desastres naturais, é obviamente se salvar e buscar uma condição de
    vida mais digna. Todavia, a promessa consumista, certamente influencia os imigrantes na
    escolha do país a que se vai buscar abrigo, os quais invariavelmente acabam sendo os países
    ocidentais ditos de primeiro mundo.
    Ainda, é preciso considerar a globalização como um dos elementos relevantes para a
    propulsão da imigração. Hoje os sistemas econômico, político, cultural e social são interligados
    e interdependentes, e passam a ser influentes e influenciados em todo campo internacional
    (CATAFESTA, 2013, p. 453). Não podemos escapar desse processo que envolve a vida de
    todos, seja de forma benéfica ou perversa.
    Nesse sentido, é inegável que esse modelo econômico, baseado no capital e no
    consumo, foi um dos grandes propulsores da desigualdade social, da pobreza e da exploração
    da mão de obra humana, além de ter contribuído e potencializando o processo migratório no
    mundo (BRITO, 2013, p. 80).
    Quanto ao ponto, vale referir que “grande parte da população não é afetada diretamente
    pela globalização, ou fica totalmente excluída de todo o processo” (TYBUSCH, J.; TYBUSCH,
    129
    F., 2018. p. 452). Por conseguinte, a movimentação mundial e os benefícios gerados por ela são
    usufruídos por uma ínfima parte de cidadãos que vivem em países chamados de “primeiro
    mundo”.
    A partir das dificuldades enfrentadas quanto aos déficits sociais e econômicos,
    observa-se uma tendência humana para a busca de um melhor padrão de vida (BAUMAN, 2017,
    p. 12). Nesse sentido, países desenvolvidos como os Estados Unidos, os países da Europa e os
    em desenvolvimento, como o Brasil, tornam-se interessantes destinos em razão do número de
    possibilidades e da potencialidade de crescimento (TEDESCO; MELLO, 2015, p. 135).
    Importante lembrar, que a trajetória da imigração acontece, na maior parte das vezes,
    de forma muito precária e temerária, uma vez que, os imigrantes arriscam suas vidas em
    travessias perigosas promovidas por aliciadores que lucram com as economias familiares e com
    à venda de esperança de uma vida digna.
    Contudo, quando da chegada do imigrante no destino os desafios são grandes.
    Questões relacionadas a legalização da permanência no país, a regularização de documentos e
    questões de moradia, saúde e alimentação são demandas de ordem pública que envolvem a sua
    segurança e o acesso à direitos fundamentais. Apesar da ocorrência dessas adversidades de
    ordem mais burocrática, também existem as tensões geradas quando da chegada em um novo
    modelo social já estruturado e com uma cultura diferente e preestabelecida. Essa acaba sendo
    uma tarefa ainda mais árdua porque o choque cultural e a presença dos imigrantes trazem
    diferentes reações na população local.
    A diferenciação entre nacionais e estrangeiros sempre esteve evidente na história da
    humanidade. Esse tipo de caracterização ocorre para a delimitação do conceito de um povo, e
    consequentemente, de Estado; uma vez que por meio de características comuns, tais como a
    cultura, a língua, as tradições, as práticas sociais e até mesmo econômicas, exteriorizadas em
    determinadas localidades, que é possível identificar determinado Estado e seu povo, os
    diferenciado dos estrangeiros (OLSEN, 2015, p. 123-124).
    Contudo, sempre se estabeleceu um processo de hibridação entre esses povos, o qual
    “nacionais convivem com os estrangeiros a partir do fenômeno da imigração, como um
    processo através do qual uma nação passa a incorporar o diferente, e quem sabe, tentar assimilálo,
    transformando-o em nacional” (OLSEN, 2015, p. 123-124). Mas, sabemos que esse processo
    é penoso para aqueles que divergem de determinado padrão e modelo social, pois as práticas
    culturais e religiosas, forma de vestimenta e, muitas vezes, até o estereótipo dos imigrantes são
    fatores impeditivos do reconhecimento social, de direitos e da incorporação do imigrante na
    sociedade nacional (OLSEN, 2015, p. 124).
    130
    Os seres humanos na sua essência e suas limitação, possuem um premente medo de
    perder o que possuem ou o que julgam ter conquistado. Esse medo sempre nos persegue, mesmo
    que de forma inconscientes: “na maior parte do tempo, então, nós sofremos, e durante todo o
    tempo nos acossa o temor do possível sofrimento ocasionado pelas permanentes ameaças que
    pairam sobre nosso bem estar” (BAUMAN; DESSAL, 2017, p. 15).
    Esse medo, leva os seres humanos a afastar o novo e tudo aquilo que modifica e difira
    de sua realidade usual e cotidiana; com os estrangeiros não é diferente, a reação inicial da
    população local é de repulsa e afastamento do que não é comum, em especial, diante do
    contraste cultural que agora passa a se delinear e compartilhar o mesmo território (BAUMAN,
    2017, p. 16).
    Neste sentido, o processo inicial é de negação da presença do imigrante que se exclui
    do contexto social, formando grupos minoritários localizados à margem dos centros, nas
    periferias das cidades. Essas circunstâncias embaraçam e bloqueiam ainda mais o
    reconhecimento dos estrangeiros, impedido qualquer tipo de integração com os cidadãos locais,
    pois afasta-os do convívio social e promove divisibilidade coletiva, minguando ainda mais
    quaisquer formas de oportunidades, sejam elas de trabalho ou de integração (TEDESCO;
    MELLO, 2015, p. 220).
    Todavia, não podemos encarar essa situação a partir de uma ótica simplista de tolerar
    o diferente, o estrangeiro. As sociedades, progressivamente, tornar-se-ão cada dia mais
    multiculturais, e a visão individualista de apenas tolerar o diferente não é mais aceitável, em
    especial, considerando que essa mudança é, em verdade, provocada pela vida moderna
    usufruída por aqueles que excluem. A passividade é aliada da indiferença e, nesse momento,
    precisamos tratar de aceitar e efetivamente reconhecer o diferente, não apenas tolerar: “o
    reconhecimento da plenitude de direitos passa, inexoravelmente, pela incorporação do
    estrangeiro e sua transformação em nacional” (OLSEN, 2015, p. 124).
    Nessa perspectiva, na angustia e necessidade de ser admitido e reconhecido no
    convívio social, os imigrantes, como forma de amenizar as diferenças e neutralizar a sua
    presença, agarram-se a diferentes estímulos e a utilizam de elementos que permitam a
    infiltração e aceitação na sociedade. Esses subsídios percorrem a suavização de sua identidade,
    seja por meio da alteração da vestimenta, de traços físicos, ou de comportamentos sociais.
    Contudo, de certa forma, essas alterações estão estritamente ligadas a adoção do modo de vida
    desses nacionais que, geralmente, está relacionado ao modelo consumerista imposto pelo
    mercado de capital.
    131
    2 Transformação das pessoas e do consumo: a desorientação dos conceitos
    Vivemos em um mundo globalizado, tecnológico e também cada vez mais dinâmico,
    que se transforma muitas vezes e em pouco tempo, multiplicando o número de possibilidades e
    aumentando a complexidade do ambiente.
    Todos esses processos propagaram a aceleração das relações sociais e promoveram uma
    nova forma de relação entre o convívio interpessoal e com a fixação em determinado espaço
    físico, abalando o ideal que tínhamos sobre o significado de estabilidade dessas relações.
    Presenciamos também um momento de transição do modelo das instituições e das organizações
    em escala mundial e, nesse novo cenário, caberá igualmente aos Estados se adaptarem a
    mobilidade humana, reorganizando e reestruturando seu papel de forma coerente e robusta
    (CRUZ, 2009, p. 5).
    Neste sentido, ante a volatilidade e o dinamismo do mundo moderno, as pessoas se
    tornaram cada vez mais individualistas e determinadas a satisfazerem seus desejos, sejam eles
    particulares ou criados e impostos pelo mercado de consumo, independentemente do que custar
    e a quem custar. Esses desejos, permitem que seres humanos sejam transformados em tarefas e
    algoritmos, incumbidos apenas de realizarem determinadas tarefas e de serem responsáveis por
    suas consequências (BAUMAN, 2001, p. 40).
    Por conseguinte, “o outro lado da individualização parece ser a corrosão e a lenta
    desintegração da cidadania” (BAUMAN, 2001, p. 46). Ou seja, a partir do momento em que o
    interesse é voltado para si, os ideais humanos, sociais e coletivos são abandonados e essa
    mentalidade acaba se refletindo na forma com que os imigrantes são tratados, desde as suas
    chegadas e durante as suas estadas nesses países.
    Notadamente, a partir do processo de globalização e do modelo de vida baseado no
    capital e no consumo, o mundo reestruturou suas relações econômicas, políticas e sociais.
    Mudanças essas, que alteraram consideravelmente a ordem das coisas e a maneira como vemos
    nosso planeta, uma vez que, as ordens de hoje são fluídas e as informações são transnacionais,
    influenciando o saber, o comportamento e a moda em todos os continentes (CANCLINI, 1997,
    p. 61).
    Tal qual mencionamos, a perspectiva de uma forma de vida linear e bem organizada,
    com fases “pré-definidas” e estruturas a serem seguidas, que por muitos anos predominou no
    mundo, foi, diante de um mundo globalizado e dinâmico, definitivamente quebrada e alterada.
    Nos dias que correm, com o aumento da tecnologia e dos meios de comunicação, somos
    bombardeados com notícias e propagandas (BAUMAN, 2008, p. 74), as quais promovem uma
    132
    transformação bastante significativa na forma como vivemos, como nos relacionamos e como
    compreendemos os fatos e acontecimentos.
    Nessa nova realidade, refere Baumann, a sociedade passa a ser representada por um
    modelo líquido-moderno, ou seja, acaba por haver uma “renegociação do significado do tempo”
    (BAUMAN, 2008, p. 45-47). Vivemos em uma cultura aonde o agora tem um peso muito
    relevante, o tempo é pontilhado, fazendo com que os processos sejam abertos e maleáveis,
    possibilitando e apresentando variar caminhos, objetivos e perspectivas, em um mundo que
    autoriza e estimula o ir e vir com uma facilidade nunca antes vivenciada (BAUMAN, 2008, p.
    45-47).
    Esse mundo globalizado, dinâmico e que estimula o consumo sem medidas promove
    inúmeros possibilidades e alternativas, o que a primeira vista pode soar interessante. No entanto,
    essa percepção de vida é devorada por um desperdício insensato, afetando o dia a dia dos
    homens em prol de um consumo e de uma competição exacerbada, que aniquila qualquer
    sentimento de solidariedade e empatia social. Os acontecimentos de hoje, tais como a imigração
    em massa, são apenas uma representação das condutas e do trato diário do ser humano com
    outras pessoas, do individualismo, da ganância e do desprezo.
    Além disso, para instigar ainda mais esse modelo de capital, o sistema conta com um
    arcabouço de meios onde o consumo passa a ser “a propensão natural para a felicidade”
    (BAUDRILLARD; FERREIRA, 2007, p. 47), o sistema no qual as mercadorias passam a ser
    símbolos, que representam coisas, hierarquias sociais e a satisfação de desejos. Desejos esses
    que não são naturais e nem primordiais, mas sim criados por propagandas e marketing que se
    tornam irresistíveis.
    Todas estas mudanças, ao fim e ao cabo, buscam fortalecer o capitalismo e estimular
    o consumo, fundamental em uma sociedade consumista; no entanto, há de se fazer uma breve,
    mas necessária, distinção entre o ato natural de consumir e sua ressignificação após a revolução
    consumista.
    O ato de consumir é uma condição natural humana, intrínseca e atemporal, pois a
    sobrevivência da espécie humana sempre dependeu do ato de consumir (sem consumir
    alimentos, água, e vestimentas não sobrevivemos). Todavia, em um dado momento da história,
    chamado de revolução paleolítica, o homem ao lascar a pedra conseguiu manufaturar
    ferramentas que lhe permitiram iniciar uma produção incipiente, deixando os homens de serem
    meros coletores; a partir daí, os atos de produzir e de consumir passaram adquiriram autonomia,
    um em relação ao outro (BAUMAN, 2008, p. 41-43).
    133
    Milênios depois da revolução paleolítica, experimentamos a chamada revolução
    consumista, oportunidade em que nossos desejos (mesmo que fabricados pelo mercado) e
    anseios de experimentar emoções e novidades (também ofertadas e estimuladas pelo mercado
    – viagens, festas, gastronomia, bebidas, drogas, etc.) passaram efetivamente a sustentar a
    economia mundial; todos estes fatos, marcam a passagem do consumo, já separado do ato de
    produzir, para o consumismo (BAUMAN, 2008, p. 38-39).
    A revolução consumistas, efetivamente ocorreu quando o consumo passou a ter maior
    relevâncias do que o trabalho, o qual era atributo da sociedade de produtores; a sociedade sólida
    moderna de produtores era orienta pela segurança, buscava um ambiente confiável, havia uma
    padronização e uma rotinização do comportamento individual, os bens não eram destinados
    para o consumo imediato e sim serviam como uma reserva para o futuro, por isso os bens
    deveriam ser duráveis e imunes ao tempo, consumia-se por necessidade e não por mero desejo
    (BAUMAN, 2008, p. 71).
    Por outro lado, na contemporânea sociedade líquido moderna de consumidores, o
    consumo passou ter maior relevância que o trabalho. A atual sociedade caracteriza-se pela
    instabilidade de desejos, pela insaciabilidade das necessidades, pela busca da felicidade
    imediata, pela obsolescências programada do bens do consumo (produtos programados para
    perecer), pela renegociação do significado do tempo (o qual deixa de ser linear e passa a ser
    pontilhado, podendo ir e vir a qualquer momento); efetivamente, caracteriza-se por uma cultura
    agorista, que não pode esperar, uma sociedade que promove o desperdício, que enfraquece os
    vínculos afetivos (BAUMAN, 2008, p. 45-52).
    Na sociedade consumista, que vivenciamos, o consumo tem relevante importância,
    passando inclusive a identificar e a definir o status social dos indivíduos: você é o que você
    consome. Todas as significações, padrões e conceitos são baseados e interpretados pelo
    consumo ou pelo potencial de consumo, tudo é menos importante, do que a satisfação dos
    desejos e sensações:
    A “sociedade de consumidores”, em outras palavras, representa o tipo de sociedade
    que promove, encoraja ou reforça a escolha de um estilo de vida e uma estratégia
    existencial consumista, e rejeita todas as opções culturais alternativas. Uma sociedade
    em que se adaptar aos preceitos culturais de consumo e segui-los estritamente é, para
    todos os fins e propósitos práticos a única escolha aprovada de maneira incondicional.
    Uma escolha viável e, portanto, plausível – e um condição de afiliação (BAUMAN,
    2008, p. 71).
    Logo, a exigência deste comportamento padrão da sociedade consumista (que
    desorienta, ressignifica e altera os conceitos), efetivamente também influencia os movimentos
    134
    migratórios no mundo. Em todos os cantos do planeta a propaganda consumista invade os lares
    de praticamente todos os seres humanos, através dos diversos meios de comunicação
    disponíveis (televisão, jornais, internet, etc.), especialmente nos provocando desejos e
    estimulando sensações, com a promessa de uma vida feliz e promissora.
    Notadamente, essa propaganda consumista contribui decisivamente nos movimentos
    migratórios, influenciando diversos cidadãos do mundo, sobretudo de países pobres a, muitas
    vezes, arriscar a própria vida em busca do sonho de uma vida ideal e feliz, como a vislumbrada
    em seus televisores e smartphones.
    Entretanto, a chegada dos imigrantes nos países almejados lhes apresenta outro
    desafio, também imposto pelo mercado de consumo, qual seja, a necessidade de se integrar ao
    estilo de vida da nova sociedade, que, como vimos, se padroniza pelo consumo; ainda, não basta
    ter um estilo de vida idêntico aos dos nativos, também se deve parecer com eles.
    Neste contexto, além da necessidade de ingressar no mercado de consumo, na
    sociedade de consumidores o corpo também faz parte da construção social, pois todos precisam
    ser e devem ser consumidores com aptidão. “Os membros da sociedade de consumidores são
    eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que
    os torna membros dessa sociedade” (BAUMAN, 2008, p. 76).
    Destarte, a revolução consumista trouxe o consumo para o foco de importância social,
    transformando, ressignificando conceitos (como o tempo) e alterando prioridades; inclusive,
    transformando e ressignificando a identidade individual de pessoas e grupos, os quais também
    passaram a ser vistos como próprias mercadorias de consumo, ante a necessidade de se
    identificar com o mercado consumidor. De maneira especial, os imigrantes também são
    afetados por este modelo de sociedade consumista, pois são como que hipnotizados pela
    promessa de uma vida melhor e feliz, longe de suas querências, e obrigados a se enquadrar a
    um modelo (a um padrão), a fim de serem reconhecido pela sociedade consumista; o que
    trataremos no próximo capítulo.
    3 O consumo como reconhecimento
    Os desafios que agora entroncam essas questões, diz respeito ao choque da diversidade
    cultural dos imigrantes, da população local e do mercado de consumo como forma de amenizar
    ou de influenciar a aceitação desses novos moradores.
    O mundo globalizado favoreceu a formação de uma sociedade heterogênea. A
    multiculturalidade acrescida de grande individualização fez com a sociedade contemporânea se
    135
    tornasse fortemente fragmentada, retratando a deserção da ideia de dignidade humana e social,
    aonde objetivos e ganâncias pessoais suplantam os gritos daqueles que se tornaram invisíveis;
    caímos na indiferença universal.
    Apesar da tentativa, em escala mundial, de impedir a imigração, com a construção de
    obstáculos e barreiras físicas, burocráticas ou psicológicas, nada disso gerou resultados
    (BAUMAN, 2017, p. 9-10); pois, diuturnamente, estamos acompanhando um significativo
    aumento na comunidade de refugiados e imigrantes ao redor do mundo. Ocorre, que a reação
    inicial para aqueles que já tem suas vidas estabelecidas naquela comunidade é de estranhamento
    e repulsa a aqueles que deixam de ser similares ao usual, provocando animosidade entre as
    pessoas e, muitas vezes, até condutas racistas e xenofóbicas (BAUMAN, 2017, p. 16).
    Neste sentido, vale lembrar que a questão migratória é tratada em muitos países
    desenvolvidos como um problema de segurança nacional, sendo estimulado e potencializado o
    medo ao diferente. É como que se os estrangeiros, por suas peculiaridades e característica
    físicas, culturais e religiosas fossem colocar em risco a economia, os empregos e a incolumidade
    pública dos nacionais. Bauman demonstra bem a realidade discriminante vivencia por jovens
    imigrantes:
    […] Cerca de um milhão de jovens muçulmanos vive atualmente em cidades francesas,
    mas dentre eles apenas cerca de mil foram registrados, apesar de imensos esforços da
    polícia e das forças de segurança, como suspeitos de conexão com terroristas. Da
    mesma forma, na opinião pública francesa, todos os mulçumanos – e, entre eles,
    particularmente os jovens – são vistos como cúmplices de crimes cometidos sem a
    sua presença: são considerados culpados antes que qualquer crime tenha sido
    cometido – […] – independentemente de suas próprias intenções e dos valores que
    possam ter escolhido, bem como da honestidade e do entusiasmo de seu desejo de se
    tornarem franceses, e de como trabalhem par isso, mais que o sentido formal de
    portarem um passaporte correspondente (BAUMAN, 2017, p. 42).
    Essa movimentação de aversão e ojeriza contra os imigrantes, seja pelo fenótipo
    distinto, pelas tradições culturais, religiosas, hábitos e formas de vestimenta, obstaculizam a
    inserção deste cidadãos na nova sociedade que, apesar de ser multicultural, ao fim e ao cabo
    (influenciada pelo mercado e pelo capital), acabam por homogeneizar e padronizar o
    comportamento social das pessoas.
    Entretanto, os indivíduos, como comportamento padrão, deveriam inicialmente aceitar
    que vivemos em uma sociedade globalizada e que somos dependentes do conjunto das pessoas
    que compõem está sociedade. Logo, pelo simples motivo de sermos “nós” e não “eu”, devemos
    ser reconhecidos, tanto na nossa individualidade, como nas nossas diferenças. (BAUMAN,
    2001, p. 202).
    136
    Ocorre que, ante a falta de empatia e compreensão do conceito de sociedade global, os
    diferentes grupos de imigrantes acabem invariavelmente sendo discriminados e excluídos da
    sociedade para qual imigraram. Todavia, o desejo de se sentir acolhido e reconhecido faz com
    que esses novos grupos acabem se caracterizando, moldando seus hábitos e indumentária de
    acordo com os padrões aceitos pela sociedade local.
    Esses são os efeitos colaterais da globalização estruturada em um mundo capitalista
    sustentado pelo consumo, o qual induz os indivíduos a reformularem suas identidades, a fim de
    se adequarem aos padrões do mercado. Neste sentido “as identidades locais estão sendo
    remodeladas a partir de matrizes globais” (CANCLINI, 1997, p. 150). Notadamente, a
    sociedade de consumo vem regulamentando que a estética e a aparência deixaram de ser
    superficiais ou secundárias, pois hoje as identidades são formadas também pelo corpo e pelas
    suas expressões (ENNES; RAMOS, 2017, p. 13).
    Ainda que o imigrante deva ser reconhecido sob um duplo panorama: como sujeito
    possuidor de direitos mínimos e como detentor da sua identidade e individualidade própria; o
    sujeito contemporâneo também usa o corpo como uma representação da sua identidade. Logo,
    o imigrante, entusiasmando pelo modelo de consumo e influenciado pela fisionomia vendida
    como padrão de aparência externo, cede aos encantos do consumo.
    Explica Marcelo Ennes:
    Por um lado o corpo possui uma dimensão inexorável. Ele existe. Mas por outro, sua
    existência é fruto de sua vivência no mundo. É por meio do corpo que o indivíduo se
    faz social, que constrói e estabelece vínculos com outros indivíduos. Esta
    problemática nos remete ao debate sobre a relação entre corpo e identidade que tem
    vários sentidos de conexão (ENNES; RAMOS, 2017, p. 14).
    Logo, na contemporaneidade, o reconhecimento do sujeito como parte do grupo está
    fortemente vinculado com o que ele significa, representa e aparenta ser dentro do contexto
    social, ao qual está inserido. Logo, as características externas dos indivíduos produzem
    interações com o grupo, o que efetivamente os leva a produzirem alterações (físicas e
    comportamentais) para uma melhor assimilação e aceitação pela nova comunidade (ENNES;
    RAMOS, 2017, p. 13).
    A sensação de estar e pertencer dentro de um grupo de referências e o sentimento da
    aprovação, está relacionado com a construção daquilo que apresentamos a sociedade
    (BAUMAN, 2008, p. 107). A nossa aparência é uma interseção entre o indivíduo e o grupo,
    que expressa um modelo de vida e as relações sociais com a comunidade (ENNES; RAMOS,
    2017, p. 15).
    137
    Hoje, somos influenciados pelo consumo e por motivos sociais e culturais, aceitamos
    inclusive alterar nossos corpos; efetivamente, nos alterarmos fisicamente para transgredir
    algumas fronteiras culturais e sociais preestabelecidas (ENNES; RAMOS, 2017, p. 16). Dessa
    forma, o imigrante, busca o reconhecimento na comunidade e a sua aceitação no grupo social,
    tudo como objetivo de se sentir naturalizado e pertencente a nova sociedade para qual imigrou,
    ainda mais, considerando que o que é estético e visual causa certa aceitabilidade e aprovação
    pelo novo grupo.
    Assim, refere ainda Ennes, que “características corporais compõem o quadro de
    referências identitárias por meio das quais produz a visibilidade ou a invisibilidade das pessoas
    no meio social no qual vivem” (ENNES; RAMOS, 2017, p. 19). Portanto, esse processo de
    aceitação do imigrante ocorre de forma mais aprazível quando este adota o modelo da sociedade
    de destino.
    É necessário destacar ainda, que essa nova expressão adotada pelo imigrante é
    resultado também da manifestação da sociedade de consumo, que impõem determinadas
    características físicas, a amenização de traços cultuais, religiosos e de papeis sociais a afim de
    que os imigrantes se enquadrem dentro de marcos pré-estabelecidos pelo consumo e por seus
    mecanismos de coerção (ENNES; RAMOS, 2017, p. 20).
    Notadamente, são vários os fatores que levam o indivíduo, imigrante ou não, a
    modificar e ou alterar seus corpos, tais como expressões de tensões psicológicas, sociais
    econômicas e culturais (ENNES; RAMOS, 2017, p. 20). Entretanto, nos indivíduos
    pertencentes a etnias minoritárias, como no caso de muitos imigrantes, há o desejo de aceitação
    e de pertencimento a nova sociedade, o que os estimula a mudar seus corpos para parecerem,
    ou sentirem-se aceitos pelos nacionais do pais para o qual imigraram (ENNES; RAMOS, 2017,
    p. 17).
    Efetivamente, a decisão de mudar o corpo para extirpar ou alterar características físicas
    que os estigmatizam, ou seja, que possam identificar o indivíduo como imigrante é, como
    dissemos no capítulo anterior, influenciada pela propaganda consumista. Ante a liquidez e a
    volatilidade da sociedade contemporânea, caracterizada pela busca da satisfação dos desejos e
    sensações, pela insaciabilidade das necessidades, pela cultura do agora, pelo inadvertido
    desperdício. Enfim, uma sociedade focada na busca da felicidade pelo consumo, uma felicidade
    momentânea, efêmera, que se pode apalpar, mas que logo se esvai, ou que verdadeiramente
    nunca chega acontecer, não passando de uma mera promessa.
    Ocorre, que mesmo diante da possibilidade de mudar o corpo para se integrar a nova
    sociedade, os imigrantes ainda passam por uma gama de questões complexas, que os impedem
    138
    de efetivamente se sentirem acolhidos ou pertencentes a sociedade para qual imigraram; pois,
    há outras questões sociais, econômicas e culturais que os estigmatizam, como por exemplo a
    religião, a herança dos pais – ou a falta de reconhecimento desta herança (você é filho de quem?)
    (ENNES; RAMOS, 2017, p. 19).
    Estas questões, diversas ao consumismo, que influenciam no reconhecimento ou na
    aceitação dos imigrante nas sociedades para as quais imigraram, merecem uma ponderação;
    haja vista, que em países com grande miscigenação de povos e etnias, como o Brasil, podem
    não ser tão influentes, mas certamente serão potencializas em países ou regiões com população
    não dão miscigenadas.
    Contudo, o alcance da propaganda capitalista, do incentivo ao consumo, ultrapassa
    fronteiras, limites geográficos, sociais e culturais, e efetivamente influencia os indivíduos,
    inclusive os imigrantes, de todos os cantos do mundo, a comportarem-se como verdadeiras
    mercadorias, adaptando-se aos desejos efêmeros e supérfluos programados pelo mercado de
    consumo; mesmo que para isso seja necessário mudar seus corpos, tudo com objetivo de serem
    aceitos e reconhecidos pela sociedade consumista.
    Conclusão
    O modelo capitalista, presente em grande parte do mundo, proporcionou o surgimento
    de um mercado de consumo cada vez mais forte, o qual por sua vez levou o ato de consumir
    para o centro de importância do sistema econômico e social, tanto que hoje o foco principal da
    economia global é o consumo.
    Neste contexto, inadvertidamente os indivíduos utilizam de todos os subterfúgios para
    se inserirem no modelo ideal proposto pelo mercado; inclusive, os indivíduos aceitam a
    condição de verdadeiras mercadorias, pois se deixam influenciar pelas propagandas do
    mercado, acreditando nos desejos e necessidades fabricadas. Tudo isso, com o mero intuito de
    alcançar a felicidade prometida, tão efêmera e impossível quanto a existência de uma vida
    sempre plena e feliz.
    Este padrão de vida traçado pelo mercado e potencializado com a revolução
    consumista, notoriamente influenciou e influencia pessoas de países pobres ou periféricos a
    procurarem, longe de seus lares, a promessa de uma vida feliz e plena. Quanto ao ponto, há de
    fazer um ressalva, de maneira especial aos imigrantes que fogem de conflitos e desastres
    naturais, que por obvio buscam uma melhor qualidade de vidas; no entanto, a promessa
    139
    consumistas, inadvertidamente, acaba por influenciar a decisão pelo país a que se vai buscar
    abrigo.
    Entretanto, além do desafio de chegar ao país almejado, os imigrantes ainda se
    deparam com o desafio de serem aceitos e integrados a nova sociedade. A aceitação pelos
    nacionais do país de destino nunca é fácil e, invariavelmente, os imigrantes são discriminados,
    estigmatizados e excluídos, tudo em razão de possuírem características físicas, religiosos,
    culturais e sociais diferentes.
    Diante destas dificuldades, os imigrantes buscam de todas as formas a aceitação pelos
    nacionais; uma destas formas é a inserção no mercado consumidor, o que se dá inclusive com
    a mudanças de suas características físicas, tudo para se enquadrar e se padronizar ao estilo
    consumista, especialmente das sociedade ocidentais; aliás, um estilo de vida que influenciou a
    escolha por estes países.
    No entanto, ainda que o imigrante mutile seu corpo, esqueça suas origens, e
    transforme-se em uma verdadeira mercadoria – com intuito de se integrar ao mercado
    consumidor, para alçar a promessa de felicidade – ainda assim, passará por dificuldades de
    reconhecimento e aceitação pelos nacionais do país de destino, pois as questões envolvidas são
    muito mais complexas que a simples aceitação pelo mercado.
    Destarte, a promessa do mercado do consumo, de uma vida plena e feliz,
    verdadeiramente influencia os imigrantes na escolha dos países de destino e induz ao consumo
    para diluir suas características pessoais, adaptando desde a sua vestimenta até seu
    comportamento ao contexto social ao qual encontra-se inserido. Isso tudo, para parecer, se
    reconhecer e ser reconhecido como pertencente ao novo grupo do qual precisa se sentir fazendo
    parte.
    No entanto, a aceitação destes imigrantes nos países de destino (os quais em sua
    maioria estão inseridos no modelo capitalista de mercado e consolidados por uma sociedade
    consumista) encontra diversos empecilhos, não ocorrendo com a simples integração do
    imigrantes no mercado de consumo, mesmo que estes imigrantes mutilem seus corpos e
    abandonem as características que os individualizam; as questões que envolvem a aceitação do
    estrangeiro são muito mais complexas do que a mera integração ao mercado de consumo.
    140
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